Levantamento de Terra de Direitos e Justiça Global mapeou ataques na campanha do 1º turno (16/8 a 4/10). Mulheres foram mais da metade das vítimas e houve média de um caso a cada nove horas.
Levantamento das organizações Terra de Direitos e Justiça Global mapeou 134 casos de violência política durante a campanha do primeiro turno de 2026, ocorrida entre 16 de agosto e 4 de outubro. Das vítimas identificadas, 70 (52,2%) eram mulheres, segundo a pesquisa divulgada na quinta-feira (8).
O monitoramento cobriu os 50 dias das campanhas para o primeiro turno e registrou uma média de um caso a cada nove horas ao longo do período. Entre os 102 episódios dirigidos exclusivamente a pessoas candidatas, 60 (58,8%) tiveram mulheres como alvo, embora elas representassem cerca de um terço das candidaturas.
Total e contexto
- 134 casos de violência política registrados até o encerramento do 1º turno;
- 50 dias de campanha monitorados: de 16/08 a 04/10;
- 121 casos no 1º turno de 2022, comparação que mostra aumento em 2026;
- A frequência foi apontada como cinco vezes maior que em períodos sem disputa eleitoral (média de uma ocorrência a cada 44 horas).
Tipos de violência
- 64 ameaças (o tipo mais recorrente);
- 33 ofensas;
- 19 agressões físicas;
- 11 atentados;
- 5 casos de criminalização;
- 2 assassinatos — ambos de agentes ligados à esfera municipal (um vereador e um secretário municipal).
Violência contra mulheres
- 70 episódios com mulheres como vítimas (52,2% do total);
- 45 casos envolveram machismo ou misoginia;
- 9 envolveram racismo;
- 5 envolveram transfobia;
- 7 ameaças de violência sexual, com mulheres como vítimas em todos os casos;
- Das 32 ocorrências classificadas como violência física (agressões, atentados e assassinatos), as mulheres foram vítimas em 21,9%;
- Das 97 ocorrências de violência simbólica (ameaças e ofensas), as mulheres foram vítimas em 61,9% (60 casos).
Raça e perfil das vítimas
- 60 vítimas eram pessoas negras (44,8% do total);
- Entre as 70 mulheres vítimas, 19 eram mulheres pretas (mais de uma em cada quatro).
Responsáveis, medidas e locais
- 26 episódios (19,4%) terão o autor identificado como agente público;
- Desse grupo, pelo menos 14 eram parlamentares ou governantes e 7 eram agentes de segurança;
- Nenhum dos 134 episódios teve punição até o encerramento da coleta de dados;
- Houveram ao menos 8 medidas de urgência durante a campanha, como remoção de vídeos, suspensão de perfis e concessão de medidas protetivas;
- 71 casos ocorreram nas ruas;
- Unidades federativas com mais ocorrências: São Paulo 16, Rio Grande do Norte 13, Minas Gerais 12 e Rio Grande do Sul 10.
“É necessário uma força-tarefa do Estado para dar respostas mais rápidas contra essas violências”, avaliou a pesquisadora responsável pela coordenação de Incidência Política da Terra de Direitos.
“Esse cenário de hostilidade, além de intimidar, gera rupturas profundas no nosso sistema democrático exigindo do Estado uma resposta firme e proporcional à gravidade da situação”, acrescentou a pesquisadora.
“Enquanto os homens são atacados por sua atuação política, mulheres, pessoas negras e pessoas trans enfrentam também o racismo, o machismo e a transfobia que estruturam a sociedade brasileira”, declarou a coordenadora da Justiça Global.
Os pesquisadores destacaram a subnotificação como fator que tende a subestimar a real dimensão do problema, já que muitos casos não chegam ao conhecimento público por medo ou pela sensação de ausência de respostas pelas autoridades. A equipe avaliou que medidas emergenciais adotadas durante a campanha podem interromper episódios imediatos, mas não equivalem à responsabilização dos autores.
O levantamento, que traçou comparação com o primeiro turno de 2022 e com períodos sem disputa eleitoral, deu fundamento às demandas por investigações, punições e por maior regulação do ambiente digital, apontado como terreno de agressões sistemáticas. Pesquisadores e organizações afirmaram que o tema exigirá acompanhamento nos próximos passos após o encerramento das campanhas.
